O Mesmo Céu: por que a vida comum vira fotografia
Ninguém escolhe onde nasce, mas todo mundo, um dia, olha para cima. É dessa observação simples que parte o tema do primeiro Festival de Fotografia Câmera e Luz. “O Mesmo Céu” convida a fotografar o que costuma passar despercebido: a rua de sempre, a mesa de domingo, o encontro, a despedida, aquilo que nos separa e aquilo que nos cobre por igual.
O tema nasce de uma ideia que atravessa a história da fotografia: a de que o extraordinário mora no comum, desde que alguém repare. Antes de abrir a convocatória nacional, que recebe imagens de 1º de agosto a 1º de outubro, vale conversar sobre o que esse convite realmente pede.
O comum, visto de perto
Fotografar não é procurar o que é bonito de longe, é escolher o que merece ser guardado de perto. A vida cotidiana, a que se repete e por isso quase não se vê, guarda o material mais rico da fotografia. A feira, o ponto de ônibus, a janela da cozinha, o trajeto de todo dia. Quem fotografa o próprio lugar parte de uma vantagem que nenhum equipamento compra: a intimidade com o que está diante da câmera.
Essa atenção ao ordinário tem tradição. A fotografia documental construiu boa parte da memória do país olhando para gente comum em situações comuns, e mostrou que uma cena banal, enquadrada com cuidado, pode dizer mais sobre uma época do que um acontecimento grandioso. É esse olhar que “O Mesmo Céu” procura, sem exigir técnica sofisticada nem assunto excepcional.
A melhor câmera é a que está na mão
Por isso a convocatória aceita imagens feitas com câmera ou com celular, e trata as duas com o mesmo peso. O que interessa não é a nitidez do aparelho, é a decisão de quem aperta o botão: para onde apontar, o que deixar de fora, em que instante. Essa decisão pode ser treinada, e é ela que separa o registro apressado da imagem que permanece.
O gesto está ao alcance de qualquer pessoa que preste atenção. Não é preciso ir longe nem esperar um momento especial. Basta olhar em volta e reconhecer, no que já é familiar, aquilo que faria falta se um dia desaparecesse.
Um retrato feito por muitas mãos
As fotografias serão expostas no Parque Vicentina Aranha, e fica montada de 21 a 4 de dezembro.
A curadoria reúne autores de idades, bairros e histórias diferentes para formar, em conjunto, um retrato coletivo. Cada foto é um olhar; juntas, elas compõem algo que nenhuma delas diria sozinha. É aí que o tema se cumpre: pessoas que não se conhecem, olhando para mundos distintos, descobrem que estão sob o mesmo céu.
As inscrições abrem em 1º de agosto. Até lá, o convite é começar a olhar.
